Venezuelana descreve tensão após bombardeios na Venezuela
Venezuelana descreve tensão após bombardeios na Venezuela – Em Caracas, a professora Zuleika Matamoros, que mora no Recife desde 2022, relata um cotidiano marcado por tropas nas ruas, milícias armadas e receio de novos ataques desde a captura de Nicolás Maduro, no sábado (3).
Residente do bairro 23 de Enero, um dos mais simbólicos da capital, ela afirma que a região foi atingida por explosões e permanece cercada por militares e grupos civis armados.
Clima militarizado domina as ruas de Caracas
Zuleika conta que ouviu o estrondo de uma bomba a poucos metros de casa. “Parece que apontam pra gente, não contra os estrangeiros”, descreve, citando metralhadoras exibidas em esquinas e barreiras de revistas constantes.
O 23 de Enero, onde estão enterrados os restos de Hugo Chávez, tornou-se palco de patrulhas permanentes. Moradores, segundo a professora, saem apenas para o essencial e evitam circular após o anoitecer.
Crise política reacende êxodo venezuelano
Com documentos pendentes, Zuleika planejava regressar ao Brasil ainda neste semestre, mas agora diz que deixaria o país “na primeira oportunidade”. O temor é compartilhado por vizinhos que cogitam nova onda de migração.
Desde 2014, cerca de 7,7 milhões de venezuelanos já cruzaram fronteiras, segundo dados do ACNUR. No Recife, Zuleika sobrevive com artesanato e venda de alimentos, já que a revalidação do diploma de professora segue em análise.
Anos antes, ela abandonou o magistério na rede pública por salários corroídos pela inflação. Embora tenha apoiado a Revolução Bolivariana de 1999, critica a condução de Maduro, que, diz, “inabilitou candidatos e colocou o peso da crise sobre os trabalhadores”. Mesmo assim, também rejeita a principal opositora María Corina Machado, por defender “ingerência estrangeira e privatizações totais”.

A educadora acredita que uma saída pacífica exigiria consulta popular e eleições livres, mas vê a população “sem garantias constitucionais, com custo de vida subindo todos os dias”. Enquanto isso, a capital tenta retomar rotinas em meio à incerteza. “Falam em voltar à normalidade, mas qual normalidade?”, questiona.
Sob o som intermitente de helicópteros, ela resume o sentimento coletivo: medo, cansaço e esperança de cruzar a fronteira logo que possível.
No Brasil, Zuleika espera reunir-se com a filha que vive no Sul desde 2018 e retomar a carreira na educação quando o diploma for reconhecido.
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Crédito da imagem: Divulgação