Infância de Clarice Lispector no Recife: mar e literatura
Infância de Clarice Lispector no Recife: mar e literatura – Entre 1924 e 1934, a escritora viveu dez anos decisivos na capital pernambucana, fase marcada por banhos de mar em Olinda, mudanças de endereço na Boa Vista e o primeiro contato intenso com livros.
Nascida na Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil ainda bebê e encontrou no Recife o sentimento de pátria que permeia sua obra, segundo pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco.
Casas e memórias no bairro da Boa Vista
A família morou em quatro imóveis da região central, começando pelo sobrado de número 387 da Praça Maciel Pinheiro. O local, atualmente cedido à Associação Casa Clarice Lispector, passará por restauração para se tornar um museu dedicado à autora.
As lembranças dessas ruas aparecem em contos de “Felicidade Clandestina”, onde a escritora descreve aromas fortes, o calor “de fruta” do Recife e o choque infantil ao presenciar a prostituição perto da praça.
Escolas que cultivaram o talento
Clarice estudou na Escola João Barbalho, na Escola Israelita do Brasil e no histórico Ginásio Pernambucano, fundado em 1825 e considerado a instituição de ensino mais antiga em atividade no país. Hoje, o colégio integra a rede estadual administrada pela Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco.
Foi ali que ela reencontrou o futuro matemático Leopoldo Nachbin e encarou o desafio de provas de nível, experiência registrada na crônica “As grandes punições”. Ainda criança, revisava textos de colegas e enviava contos ao Diario de Pernambuco, todos rejeitados na época.
Banhos de mar e saudade materna
Após a morte da mãe, Mania Lispector, em 1930, o pai, Pinkouss, intensificou as idas madrugadeiras de bonde até o Carmo, em Olinda, para o “banho em jejum”, ritual eternizado na crônica “Banhos de Mar”. Clarice atribuía à água salgada o consolo para a ausência materna.
A perda também reforçou sua relação afetiva com a língua portuguesa; a escrita passou a ser, segundo especialistas, espaço de reconstrução emocional.

Museu Clarice Lispector: legado preservado
O projeto do futuro museu estima investimento de R$ 7 milhões captados via Lei Rouanet. O comodato de 25 anos, firmado com a Santa Casa de Misericórdia, prevê restauro completo do sobrado e criação de salas expositivas, biblioteca e programação educativa.
Empresas podem deduzir até 4% do Imposto de Renda ao apoiar a iniciativa, enquanto pessoas físicas têm limite de 6%. A proposta busca transformar a memória da escritora em ponto de difusão cultural e turística no centro do Recife.
No fim de 2020, Clarice recebeu oficialmente o título de cidadã pernambucana e passou a ser patrona da literatura do estado, reforçando o vínculo já celebrado em seus textos.
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Crédito da imagem: Divulgação / IMS